Escolas de Samba desfilam em Uruguaiana |
Francisco de Assis
Direto de Uruguaiana
Que o Carnaval é feito de exageros todo mundo sabe. Mas em Uruguaiana, na fronteira do Brasil com a Argentina, a criatividade parece estar um pouco além do que poderia ser considerado imaginável. E não é preciso ir muito longe, apesar da considerável distância de cerca de 2 mil km de São Paulo - a duras cavalgadas pelos Pampas - para perceber um pouco do espanto que a cultura fronteiriça é capaz de proporcionar aos seus visitantes. Basta pegar a lista de escolas de samba da cidade e pronto. Já dá para ter um pouco de idéia do que a inusitada festa pode trazer.
"Vou torcer para a Cova da Onça", afirma o operador de máquinas Jéferson Bilhalda. "Estou aqui por causa da Bambas da Alegria", acrescenta o ambulante Jorge Marques. "Quero ver a Toca do Lobo", opina a estudante Maria Rodrigues. "Esse vai ser o ano da Chucha na Zebra", complementa a assistente de vendas Teresa Mendonça. Nomes que chamam a atenção e certamente não passam despercebidos pelos foliões de primeira viagem.
"Eu acho que tudo por aqui é diferente. Já começa pelo Carnaval, que acontece depois que termina no resto do Brasil", explica a comerciante Marly Gutierrez. "São diversidades culturais que marcam o nosso Brasil. Dentro do Rio Grande do Sul, mesmo, há muitas diferenças entre os moradores da fronteira e as pessoas que estão em Porto Alegre. E olha que estamos falando do mesmo estado", disse a secretária Carla Silva.
Do ponto de vista técnico, Uruguaiana talvez seja a única cidade no mundo onde a principal escola de samba da cidade tem uma ala composta com as cores do grupo rival: "Dá-lhe Rouxinóis! Sou verde e branco desde pequeno", comenta com naturalidade o militar Alexandre Souza. O motivo da surpresa da torcidano entanto, ¿ quem diria -, fica por conta,da sogra do rapaz: "A família toda é Rouxinol. A mãe da minha mulher tem até uma ala que se chama Vermelho e Branco".
Evidentemente, para quem não conhece o Carnaval da cidade, os nomes das escolas de samba muitas vezes acabam soando como uma espécie de gíria humorística e causam piadas. "Se eu não fosse daqui acharia estranho. Mas como todo cidadão uruguaianense, já estou acostumado", conta o estofador Dagoberto Scheneider. Para aqueles que são de fora, a situação é bem diferente.
Pense, por exemplo, no que aconteceria se alguém chegasse ao escritório pela manhã e dissesse a seguinte frase antes do trabalho. "Isto aqui está cheirando cova da onça". Certamente haveria problemas com a chefia. Em Uruguaia, a mesma expressão nada mais significa uma possível vitória da escola vermelho e branco, a rival dos Rouxinóis. "Seria algo muito estranho", opina a comerciante Joana Gutierrez. "Cova já trás a impressão de morte. Não é muito legal", acrescenta o estudante de administração de empresas Fernando Gotiz.
A mesma situação poderia trazer um sentido um pouco diferente se algum engraçadinho dissesse aos amigos que iria a Uruguaiana para "ver a toca do lobo". "Sou de Santa Maria e confesso que se tivesse dito isso antes de viajar para cá muita gente iria rir. Com certeza achariam estranho", conta o estudante Pedro Correa.
Por fim, se tratando de um problema mais sério, não seria fácil acreditar que um desses tradicionais gaúchos da fronteira, de bombachas e chimarrão, fosse capaz de se apresentar em um clinica especializada em próstata em Porto Alegre exclamando uma eventual vitória carnavalesca. "O médico ia pensar que o cara está com medo, pipocando, como no futebol, ou iria associá-lo a um azarão", disse o autônomo Erico Farias. "Eu jamais diria isso", afirma o administrador Juliano Castelo Branco. "Nem morto, está louco?", indaga o estudante Jaci Moraes.
Seja como for, no carnaval fora de época de Uruguaiana qualquer coisa fora do comum é possível. Chucha no lobo, zebra na toca, cova na onça e bambas no rouxinol. Faz parte da festa e a torcida gosta. Aliás, é bom deixar claro. Qualquer tipo de confusão mental dentro da festa não passa mesmo de um pequeno lapso colateral e nesse caso a melhor coisa a fazer é colocar o sorvete na testa e curtir a folia.
Especial para Terra