Uruguaios curtem Carnaval fora de época |
Francisco de Assis
Direto de Uruguaiana
O portunhol foi a língua oficial da terceira noite de desfiles do Carnaval fora de época de Uruguaiana. Argentinos e uruguaios cruzaram a fronteira e carimbaram o passaporte do samba para acompanhar um pouco daquela que - ao conjunto da obra - é considerada a maior festa popular brasileira e que, como não poderia ser diferente, na Fronteira Oeste, acaba atraindo estrangeiros do cone sul da América.
"É uma emoção muito grande. Nosso País está reunido aqui e queremos que essa união fique ainda maior", comentou a psicóloga uruguaia Elisa França. "É a primeira vez que venho aqui. Peguei estrada e cruzei a aduana para acompanhar de perto o Carnaval brasileiro. Sabemos que é muito bom. O povo brasileiro é receptivo e alegre. É o que nos mostram pela televisão e estou comprovando isso. Estou muito feliz em poder participar dessa festa", afirmou a estudante argentina Giza Colon.
Diante de tanta curtição, o idioma não foi um problema para os foliões estrangeiros. Eles riscaram do dicionário algumas das regras oficiais que envolvem as duas línguas e acabaram por unificar aquilo que até hoje professores e lingüistas chamam, num trocadilho de palavras, de "portunhês".
"Dá para entender o significado dentro de um contexto, mas muitas palavras têm um sentido totalmente diferente do que parecem", disse o repórter de televisão uruguaia Sérgio Martinez. "São palavras hetersosemanticas que possuem a mesma forma e significados opostos", explicou o professor de português Vinicius de Almeida, de Porto Alegre.
E como nem tudo é o que parece ser, a tradução errada diante de uma tentativa de pronúncia inadequada pode acabar em confusão. "Cuchara? É aquilo que usamos para comer doces no Uruguai", disse o professor uruguaio Carlos Símon. No português, a palavra de origem espanhola, no entanto, é substituída pelo termo "colher", que no castelhano significa algo muito além de um instrumento de refeição. "Culher, meu Deus. Usamos essa expressão para nos referirmos às garotas de programa", complementou Simon.
Se Carnaval é cultura, uma regra clara, do outro lado da fronteira, é jamais pedir uma "colher" em um restaurante caseiro. "Não sabia disso. É bom para ficar esperto, se um dia eu resolver dar uma volta pela América", disse a estudante de enfermagem Joana Frias. Da mesma forma, as passistas brasileiras não precisam se preocupar ao ouvirem aquilo que poderiam considerar um elogio de mau gosto. "Não tem coisa pior do que alguém nos chamar de gorda, ou de grávida", disse a passista Priscila Peregrine. Pelo castelhano, a palavra grávida é substituída por "Embarazada".
Mas em alguns casos, o "s", que tem o fonema de "z" no português, pode ser entendido, também, como "zeta", e ganha um sentido diferente e malicioso quando interpretado de forma distorcida. O exemplo fica por conta da tradução do que para os espanhóis significa ônibus, mas para os brasileiros, soa de forma estranha através do monossílabo inglês "Bus", pronunciado no castelhano como "Bu + S (zeta)".
Seja como for, deixando as diferenças de lado, brasileiros, argentinos e uruguaios não encontram problemas para curtir o carnaval de Uruguaiana, que apesar de tudo tem muitas semelhanças. Basta dizer que quando se pensa em folia, indiferente de qualquer tipo de sotaque, a palavra "samba" acaba simplificando tudo o que todos querem.
Especial para Terra